Ao nos aproximarmos do fim de mais um ano, é quase automático fazer balanços. Revisar metas, avanços, aprendizados. Na transição energética, 2025 foi marcado por anúncios, compromissos globais, novas tecnologias, relatórios ambiciosos e promessas que projetam um futuro mais limpo.
Mas talvez este seja um bom momento para uma pergunta menos confortável e mais necessária: o que ainda não aprendemos sobre nós mesmos enquanto tentamos fazer essa transição acontecer? Qual a nossa real maturidade no tema?
Falamos muito sobre como fazer a transição energética. Falamos pouco sobre quem somos enquanto tentamos realizá-la.
Nos últimos anos, avançamos em tecnologias, metas, compromissos climáticos, conferências e novas rotas energéticas. Mas o maior desafio da transição não está, necessariamente, na ausência de soluções. Ele está na nossa capacidade de transformar intenção em prática, discurso em implementação, ambição em resultado mensurável.
A transição energética gosta de se apresentar como um consenso técnico. Na realidade, ela acontece em um ambiente de escolhas difíceis. Escolhas entre o ideal e o possível. Entre soluções que ainda prometem muito e soluções que já entregam resultados. Entre narrativas que engajam e decisões que exigem trabalho contínuo, escala e perseverança.
Nem sempre estamos confortáveis com essas escolhas.
Aprendemos a sonhar grande, e isso é fundamental. Mas, em alguns momentos, passamos a valorizar mais o potencial futuro do que o impacto presente. Ao fazer isso, corremos o risco de adiar resultados reais em nome de promessas mais atraentes, porém ainda distantes da realidade.
A transição energética não falha por falta de boas ideias. Ela falha quando soluções existentes, testadas e escaláveis são tratadas como pontes provisórias, enquanto alternativas que ainda não estão maduras ocupam o centro do debate.
O biodiesel é um exemplo claro de que já temos respostas prontas agora. São mais de 20 anos de resultados ambientais, sociais e econômicos mensuráveis no Brasil.
Ainda assim, grande parte da discussão segue concentrada em soluções que não estão prontas. Isso não é um problema em si. Inovação é indispensável. O problema surge quando esse foco excessivo no futuro obscurece os benefícios do que já funciona no presente.
No Brasil, esse dilema é especialmente relevante. Temos soluções que reduzem emissões agora, geram desenvolvimento regional, fortalecem cadeias produtivas, promovem inclusão social e entregam resultados concretos. Ignorá-las ou minimizá-las não nos torna mais ambiciosos. Apenas nos torna menos eficazes.
O biodiesel não é apenas um biocombustível que move motores. Ele é expressão da capacidade de execução, de aprendizado acumulado e de uma política pública que funciona na prática. Tratá-lo como algo secundário diante de promessas futuras é confundir visão com inércia.
Talvez a transição energética ainda precise aprender que não existe avanço sem implementação. Que não existe impacto sem escala. E que não existe combate à crise climática sem ações assertivas, com benefícios comprovados.
Ao olharmos para 2026, o desafio não é escolher entre sonhar ou agir. É fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Sonhar com o futuro sem abandonar o que já funciona. Inovar sem desprezar quem entrega resultados hoje. Construir narrativas inspiradoras sustentadas por prática consistente.
E se o próximo estágio da transição energética não for tecnológico, mas de maturidade?
Porque, no fim das contas, a transição que transforma não é a que promete mais. É a que entrega.
Que 2026 nos encontre menos fascinados por promessas e mais comprometidos com entregas.