Energia, poder e o preço das escolhas que o mundo fez

Informativos 22 de January de 2026

Energia, poder e o preço das escolhas que o mundo fez

Por André Lavor

Em momentos de tensão internacional, é comum que o debate público se concentre nos atores visíveis do conflito: governos, líderes, decisões recentes. Mas, muitas vezes, o que sustenta essas crises está em camadas mais profundas, estruturais e silenciosas. A energia é uma delas.

Ao longo das últimas décadas, a organização do sistema energético global moldou não apenas economias, mas também relações de poder. A concentração de determinadas fontes em regiões específicas criou dependências, assimetrias e disputas que se repetem sob diferentes contextos históricos. Mudam os países, mudam os discursos, mas a lógica permanece constante.

Quando cadeias produtivas inteiras dependem de recursos finitos, concentrados e sujeitos a controle político, a energia deixa de ser apenas um insumo para o desenvolvimento. Ela passa a influenciar decisões estratégicas, alianças internacionais e movimentos de pressão econômica. Em cenários assim, choques externos rapidamente se transformam em instabilidade interna, com reflexos diretos sobre preços, abastecimento e bem-estar da população.

O que chama atenção não é apenas a recorrência desses episódios, mas a previsibilidade com que eles surgem. Em um mundo que ainda estrutura sua matriz energética majoritariamente sobre combustíveis fósseis, crises deixam de ser exceção e passam a ser parte do funcionamento do sistema. A dependência se converte em vulnerabilidade, e a vulnerabilidade em tensão permanente.

Nesse contexto, a transição energética precisa ser compreendida para além da agenda ambiental. Ela dialoga com soberania, autonomia e resiliência. Diversificar fontes, descentralizar a produção de energia e investir em alternativas renováveis não é apenas uma resposta às mudanças climáticas, mas uma estratégia de redução de riscos econômicos e geopolíticos.

Fontes renováveis e biocombustíveis, por exemplo, operam sob uma lógica distinta. Estão ancorados em cadeias produtivas distribuídas, conectadas a economias locais e menos suscetíveis a interrupções externas abruptas. Ao ampliar o número de países capazes de produzir sua própria energia, essas soluções reduzem assimetrias e diminuem a necessidade de disputas por controle de recursos estratégicos.

A experiência brasileira demonstra como essa abordagem pode gerar efeitos que vão além da sustentabilidade ambiental. Ao incorporar biocombustíveis de forma estruturante em sua matriz, o país fortaleceu cadeias internas, reduziu exposição a oscilações internacionais e aumentou sua previsibilidade energética. São ganhos que raramente aparecem nos debates mais imediatos, mas que fazem diferença justamente nos momentos de crise.

Talvez o ponto central não seja discutir conflitos específicos, mas refletir sobre o modelo que os antecede. Sistemas energéticos baseados na escassez tendem a produzir competição. Sistemas baseados na renovabilidade abrem espaço para cooperação. A escolha entre um e outro molda não apenas emissões ou indicadores econômicos, mas o grau de estabilidade que o mundo consegue sustentar ao longo do tempo.

O debate energético, portanto, não é neutro. Ele carrega implicações profundas sobre como países se relacionam, como economias se protegem e como sociedades atravessam períodos de incerteza. Ignorar essa dimensão é tratar sintomas sem enfrentar a causa.

À medida que alternativas maduras e escaláveis já estão disponíveis, a questão deixa de ser técnica. Passa a ser estratégica. O futuro energético que escolhemos construir hoje influencia não apenas o clima das próximas décadas, mas o tipo de mundo, mais cooperativo ou mais conflituoso, que estaremos dispostos a administrar amanhã.

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