Edição de March de 2026

Mensagem de Liderança

Março traz debates relevantes para o futuro dos biocombustíveis no país. Nesta edição, abordamos a proposta de avanço na mistura obrigatória de biodiesel ao diesel e o que pode mudar na prática, além do lançamento da Coalizão dos Biocombustíveis, que fortalece a agenda comum do setor. Também destacamos o potencial do biodiesel nas termelétricas e alguns resultados da economia circular que transformou óleo de cozinha usado em energia boa ao longo de 2025.

André Lavor

André Lavor

Biodiesel nas termelétricas: redução de emissões, segurança energética e geração de empregos  

O uso de biodiesel na geração de energia elétrica desponta como uma das alternativas mais imediatas para ampliar a descarbonização da matriz energética brasileira. A substituição do diesel fóssil utilizado em usinas termelétricas por biodiesel nacional gera impactos ambientais expressivos sem exigir mudanças estruturais na infraestrutura já existente. 

O biodiesel apresenta intensidade de carbono significativamente menor em comparação ao diesel de origem fóssil. A substituição reduz a pegada de carbono da energia produzida, mantendo a confiabilidade do sistema elétrico nacional. A incorporação do biodiesel nas termelétricas pode aproximar ainda mais o país de um sistema elétrico praticamente 100% renovável, especialmente em momentos de maior necessidade de geração térmica, como em períodos de instabilidade energética.  

Além disso, o biodiesel ainda apresenta uma vantagem significativa sobre outras fontes de energia, inclusive as que também são renováveis. Diferentemente das fontes eólica, hidráulica e solar, o biocombustível está sempre disponível para uso, independentemente das condições climáticas.  

A ampliação do uso de biodiesel também gera efeitos positivos para a economia brasileira. Desde a introdução do biocombustível na matriz energética, o país já economizou cerca de R$ 300 bilhões em importações de diesel fóssil. 

O setor também possui forte impacto social. Atualmente, a cadeia do biodiesel gera cerca de 2,4 milhões de empregos no país, com salários médios 16% maiores aos de outros segmentos da agroindústria. No campo, mais de 300 mil agricultores familiares participam do programa do Selo Biocombustível Social, que integra pequenos produtores à cadeia produtiva dos biocombustíveis. 

O que muda na prática com o aumento da mistura de biodiesel? 

O biodiesel ocupa papel estratégico na matriz energética brasileira e, nos últimos anos, a política de mistura obrigatória tem sido um dos principais instrumentos para ampliar o uso de combustíveis renováveis no território nacional. Atualmente, o diesel comercializado no Brasil conta com 15% de biodiesel (B15), embora, de acordo com a Lei Combustível do Futuro, o país poderia ter avançado no mandato e chegado ao B16 no último dia 1º de março.  

Pode parecer um ajuste pequeno, mas esse aumento carrega impactos relevantes do ponto de vista ambiental, econômico e produtivo. A diferença representa, na prática, um volume adicional significativo de biodiesel no mercado. Cada ponto percentual adicional na mistura substitui em aproximadamente 800 milhões de litros de diesel por ano, segundo dados da EPE e da ANP.  

Esse aumento tem reflexos diretos na redução de emissões de gás carbônico. O biodiesel possui menor intensidade de carbono em comparação ao diesel fóssil, contribuindo para diminuir a quantidade de gases de efeito estufa liberados na atmosfera. Em termos práticos, um único ponto percentual na mistura pode representar a retirada de 3 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera anualmente, o equivalente ao plantio de mais de 60 milhões de árvores.  

O avanço da mistura também movimenta uma ampla cadeia produtiva que envolve agricultura, processamento industrial, logística e distribuição de combustíveis. A produção de biodiesel no Brasil utiliza matérias-primas como óleo de soja e outras fontes renováveis, o que gera demanda adicional para o setor agrícola e fortalece a integração entre campo, indústria e energia. Esse movimento contribui para geração de renda, empregos e desenvolvimento regional. A estimativa do governo é de que a cada 1% adicional, 25 mil agricultores novos entrem no Selo Biocombustível Social, um dos programas sociais mais bem-sucedidos do mundo.  

Coalizão dos Biocombustíveis fortalece agenda comum do setor 
Em meio à busca pela descarbonização e redução da dependência dos combustíveis fósseis, quatro frentes parlamentares do Congresso Nacional — Agropecuária, Biodiesel, Etanol e Economia Verde — lançaram a Coalizão dos Biocombustíveis, no último dia 4 de fevereiro, em Brasília.  

 A iniciativa tem o objetivo de fortalecer o setor e acelerar a implementação de medidas que ampliem a utilização de combustíveis renováveis no Brasil e no mundo. Além disso, a Coalizão almeja amplificar o diálogo com embaixadores e mercados internacionais, reforçando o papel estratégico dos biocombustíveis para o Brasil liderar a transição energética global, com benefícios ambientais, econômicos e sociais. 

Como resultado prático dessa união, no último dia 9 de março, em São Paulo, a Coalizão entregou o documento Mapa do Caminho ao embaixador e presidente da COP30, André Corrêa do Lago.  O texto destaca as principais externalidades positivas dos biocombustíveis brasileiros, entre eles, o biodiesel. De acordo com o deputado federal Arnaldo Jardim, coordenador-geral do Movimento, diante do cenário atual, a meta é quadruplicar a produção de biocombustíveis nos próximos anos.  

“O Brasil já tem uma indústria de biocombustíveis madura e competitiva. O que está em jogo, agora, é consolidar essa rota e dar estabilidade para que ela continue gerando emprego, renda e redução real de emissões”, disse André Lavor, CEO e cofundador da Binatural, uma das dez maiores empresas de biodiesel do país.  

Óleo de cozinha reciclado vira energia: os números do UCO em 2025 

O reaproveitamento do óleo de cozinha usado, conhecido internacionalmente como UCO (Used Cooking Oil), tem se consolidado como uma das frentes mais concretas de economia circular no setor de biocombustíveis. Ao transformar um resíduo doméstico em matéria-prima energética, o biodiesel amplia seus benefícios ambientais e reforça o uso eficiente de recursos. 

Em 2025, a Binatural transformou 22 milhões de litros de óleo de cozinha usado em biodiesel, demonstrando o potencial do UCO como insumo estratégico para a produção de energia renovável.  

Esse volume gerou os seguintes resultados:

  • 534 bilhões de litros de água preservados;
  • Equivalente ao abastecimento da cidade de São Paulo por cerca de 10 meses; 
  • Mais de 5,3 bilhões de banhos ou 213 mil piscinas olímpicas.

O descarte incorreto do óleo de cozinha pode provocar entupimentos, contaminação de cursos d’água e impactos ambientais relevantes. Mas quando coletado e destinado corretamente, esse resíduo passa a integrar a cadeia de produção do biodiesel, contribuindo para reduzir emissões e ampliar o uso de fontes renováveis. 

Esse modelo reforça a lógica da economia circular, em que o óleo usado deixa de ser um problema ambiental e passa a gerar valor econômico e energético. Ao fechar o ciclo entre consumo, reciclagem e produção de energia, o UCO se consolida como um dos exemplos mais tangíveis de transformação de resíduos em soluções concretas para a transição energética.