A discussão sobre a importação de biodiesel para atender à mistura obrigatória vai além de uma simples comparação de preços. Trata-se de uma política pública estruturada ao longo de duas décadas, com impactos sociais, econômicos e ambientais mensuráveis. A recente Análise de Impacto Regulatório conduzida no âmbito do governo federal foi clara ao recomendar a manutenção da vedação, reconhecendo os riscos sistêmicos da abertura desse mercado.
Um dos efeitos mais imediatos recairia sobre a agricultura familiar. Hoje, mais de 300 mil produtores estão integrados à cadeia por meio do Selo Biocombustível Social, com geração de renda e desenvolvimento regional. Fragilizar o mercado compulsório significaria comprometer previsibilidade, reduzir demanda interna e pressionar toda a engrenagem produtiva que sustenta milhões de empregos no campo e na indústria.

Há ainda impactos indiretos sobre o custo dos alimentos. A cadeia da soja, principal matéria-prima do biocombustível no país, é integrada. Enfraquecer a indústria nacional pode desorganizar essa dinâmica, afetando oferta, investimentos e, consequentemente, preços ao consumidor. Ao mesmo tempo, não há justificativa técnica para a abertura: o Brasil possui capacidade instalada de 15 bilhões de litros e encerrou 2025 com produção recorde de 9,8 bilhões, volume suficiente para atender ao crescimento previsto em lei.
O produto nacional é um dos mais testados e regulados do mundo, resultado de 20 anos de aprimoramento técnico, controle de qualidade e rastreabilidade. O debate, portanto, não se limita à comparação de preços, mas envolve previsibilidade regulatória, segurança energética e desenvolvimento interno.