Edição de janeiro de 2026

Mensagem de Liderança

Começamos 2026 com um tema que atravessa mercado, logística e geopolítica: a energia voltou a ser sinônimo de resiliência. Em um cenário internacional com pressão crescente por descarbonização, o biodiesel e outros biocombustíveis ganham ainda mais relevância. Nesta primeira edição do ano, trazemos a leitura do mercado brasileiro. Compartilhamos ainda um caso que traduz sustentabilidade em resultado, olhamos para o setor marítimo e discutimos se é possível chegar ao net zero no mar. Boa leitura!

André Lavor

André Lavor

O biodiesel pode ganhar novo fôlego no Brasil em 2026, com a demanda nacional projetada em 11,2 bilhões de litros caso o avanço da mistura obrigatória no diesel para 16% se confirme, segundo análise do time de especialistas e de dados da Binatural. O movimento, se efetivado, ocorre em um mercado que já tem capacidade industrial para atender o crescimento.

Para 2026, a expectativa do setor é de avanço adicional, com a mistura obrigatória evoluindo para 16%, caso a medida seja confirmada e implementada no calendário previsto. Nessa hipótese, a demanda nacional pode atingir 11,2 bilhões de litros, crescimento puxado tanto pela maior participação do biodiesel no diesel quanto pela projeção de alta do consumo de Diesel B em torno de 1,5% no ano.

A confirmação dessa trajetória é relevante não apenas por adicionar volume, mas por reduzir incertezas de planejamento. Em um setor que depende de insumos agrícolas e pecuários, a previsibilidade da mistura obrigatória tende a influenciar contratos, compras, programação industrial e decisões de investimento.

O parque industrial de biodiesel atualmente em operação teria condições de atender volumes compatíveis com uma mistura superior a 20%, em termos físicos. Por isso, o foco do mercado tende a se concentrar menos em capacidade e mais em custo.

A turbulência política que voltou a envolver o cenário global nas últimas semanas reforça um ponto conhecido por governos e mercados: energia não é apenas um assunto econômico, é também um fator de estabilidade internacional.

Historicamente, o controle e a oferta de petróleo têm sido estopins para confrontos e crises diplomáticas. Em um cenário marcado por conflitos, sanções e volatilidade, a dependência de petróleo e derivados expõe países a riscos que vão muito além dos preços.

Relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (IEA) reforçam essa leitura ao destacar que a concentração da oferta fóssil amplia vulnerabilidades e transforma choques externos em inflação, instabilidade política e pressão sobre o abastecimento. Quanto maior a dependência de combustíveis importados, maior a exposição a decisões tomadas fora das fronteiras nacionais.

Nesse contexto, a ampliação do uso de biocombustíveis, como o biodiesel, surge como uma resposta concreta. Ao diversificar a matriz energética e fortalecer a oferta doméstica e renovável, os países reduzem parte da dependência externa e, consequentemente, sua vulnerabilidade geopolítica.

Não se trata de eliminar conflitos globais, mas de mitigar riscos e aumentar a resiliência do sistema energético. A Agência Internacional de Energia tem destacado que tensões geopolíticas expõem fragilidades do sistema energético e reforçam a necessidade de acelerar tecnologias e biocombustíveis mais seguros e sustentáveis.

Diversificar fontes de energia é hoje uma escolha estratégica e pode ser uma das respostas mais assertivas para diminuir risco, custo e vulnerabilidade. Em um mundo cada vez mais instável, biocombustíveis representam não apenas uma solução ambiental, mas também um instrumento concreto de segurança, previsibilidade

Em pleno verão, a temporada de cruzeiros volta a colocar o setor marítimo sob os holofotes no Brasil, com mais navios em operação e portos cheios. Na COP30, em Belém, essa visibilidade ganhou um símbolo extra: dois transatlânticos foram contratados como hotéis flutuantes para ampliar a capacidade de hospedagem, entre eles o MSC Seaview e o Costa Diadema.

Quando a pergunta é “dá para zerar emissões?”, a resposta é afirmativa. O setor marítimo consegue chegar ao net zero e não como promessa abstrata: o caminho já está desenhado e começa com soluções que podem entrar na operação agora, com destaque para o biodiesel.

Antes, vale alinhar o conceito. No marítimo, “zerar” significa atingir emissões líquidas zero ao longo do ciclo de vida do combustível, a lógica well-to-wake (metodologia para medir o impacto total de emissões), e não apenas reduzir o que sai do escapamento. É exatamente por isso que rastreabilidade, certificação e contabilidade de emissões viraram parte central da agenda.

No plano regulatório, a direção está estabelecida. A Organização Marítima Internacional (IMO) consolidou a ambição de levar o transporte marítimo internacional ao net zero até 2050 e definiu marcos para acelerar a adoção de combustíveis e tecnologias de zero ou quase zero emissões, com meta de reduzir 30% até 2030 e 80% emissões até 2040.

É aqui que o biodiesel se diferencia para 2026 e além. Ele não depende de esperar uma frota nova, nem de “reinventar” a infraestrutura para começar a reduzir emissões. No Brasil, o biodiesel já tem aplicação prática via blends de até B24 (mistura de 24% de biodiesel ao diesel) e tem sido testado em condições reais, inclusive no universo dos cruzeiros e viagem de navio de carga por longo percurso.

O que esses exemplos mostram é simples e poderoso para o leitor: o net zero no marítimo não começa no “combustível do futuro”, ele começa com o que já está pronto para reduzir emissões agora, enquanto regras, infraestrutura e escala avançam. A transição é por camadas: eficiência e combustíveis renováveis disponíveis no curto prazo, com biodiesel como solução imediata, somadas a governança de dados e regulação para sustentar a trajetória até 2050.

A temporada de cruzeiros reforça porque isso importa. O debate deixou de ser só de cargueiros e passou a envolver turismo, cidades portuárias e a experiência do consumidor, com pressão crescente por respostas concretas. E resposta concreta já existe: sim, dá para zerar emissões no setor marítimo, e o biodiesel é o atalho mais realista para acelerar essa rota a partir de agora.

A cadeia do biodiesel tem um efeito que vai além da energia. Por meio do Selo Biocombustível Social, o setor é estruturado para fomentar mais de 300 mil agricultores familiares em todo o país. E, a cada 1% do biocombustível misturado ao diesel fóssil, aproximadamente 25 mil pessoas são inseridas no programa.



Na prática, essa política pública ganha forma quando a parceria chega na ponta. Um exemplo é a Associação Cidadania Rural, no norte da Bahia. Com apoio viabilizado pela Binatural, a associação investiu em mecanização e capacitação técnica e transformou o ritmo da produção: antes, a debulha do milho limitava o processamento a 20 toneladas por dia; com o novo equipamento, passou a 80 toneladas diárias, quadruplicando o volume e permitindo realocar 15 colaboradores para funções estratégicas.

“Com a nova máquina, os nossos associados vendem mais, inclusive para a própria Binatural, fortalecendo a renda e a sustentabilidade do trabalho no campo”, explica Erielton Gonçalves Barros, diretor financeiro da Associação Cidadania Rural. Além do milho, a associação mantém contratos de fornecimento de mamona e sisal, com produção informada de 250 toneladas de mamona e cerca de 850 toneladas de sisal, reforçando uma dinâmica de escoamento e previsibilidade para a economia local.

Outro exemplo que já faz parte dessa trajetória na Bahia vem do Baixo Sul. Em 2025, a Binatural apoiou iniciativas junto à COOMAFES, cooperativa feminina de agricultura familiar e economia solidária de Valença, reunindo mais de 100 agricultoras e ampliando oportunidades de renda, autonomia e acesso a mercados. “A parceria nos ajuda a legitimar nossas vendas e a ter acesso a novos mercados. Quando vendemos para a Binatural, não estamos apenas vendendo produtos, estamos mostrando que somos capazes e que nosso trabalho tem valor”, afirmou Maria Joselita Santos, conhecida como Branca, uma das líderes da cooperativa.

No conjunto, os casos ajudam a traduzir o cenário em algo concreto: quando assistência técnica, previsibilidade de compra e investimento em produtividade chegam na ponta, o biodiesel vira também instrumento de desenvolvimento. É assim que uma política pública se materializa em mais eficiência, mais renda e mais protagonismo para quem sustenta a produção no campo.

}