Edição de fevereiro de 2026

Mensagem de Liderança


O Radar Binatural evolui com o setor: deixa de ser bimestral e passa a ser mensal, ampliando nosso diálogo sobre energia e desenvolvimento. Nesta edição, mostramos como o biodiesel já é parte concreta da resposta brasileira às mudanças climáticas, ao mesmo tempo em que movimenta a economia nacional, com capacidade instalada comprovada, fortalece o campo e pode tornar até o carnaval mais sustentável. 

Boa leitura!


André Lavor

André Lavor

As consequências das mudanças climáticas já fazem parte do cotidiano. Ondas de calor mais intensas, secas prolongadas e eventos extremos atingem populações em todo o planeta. 

No Brasil, por exemplo, os impactos são bastante significativos. Estimativas do Banco Mundial indicam que as alterações no clima podem empurrar 3 milhões de brasileiros para a pobreza extrema até 2030, além de gerar perdas econômicas da ordem de R$ 13 bilhões anuais. 

No mundo, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, 3,6 bilhões de pessoas vivem em áreas altamente vulneráveis. A Organização Mundial da Saúde projeta que, entre 2030 e 2050, até 250 mil mortes adicionais por ano poderão ocorrer em razão de desastres associados ao clima.

O cenário reforça a urgência de medidas capazes de reduzir emissões e, ao mesmo tempo, promover desenvolvimento sustentável.

Nesse contexto, o biodiesel se apresenta como uma alternativa imediata e mensurável. Desde 2005, ano em que o biocombustível foi inserido na matriz energética nacional, foram produzidos 87 bilhões de litros, volume que evitou a emissão de 270,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono. Trata-se de um resultado concreto, com impactos ambientais já comprovados e incorporados à rotina da sociedade brasileira. 

As perspectivas indicam ganhos adicionais. Caso seja cumprido o cronograma da Lei do Combustível do Futuro, que prevê o aumento gradual de 1% ao ano na mistura ao diesel fóssil até 2035, cerca de 3 mil vidas poderão ser preservadas na próxima década.

Isso porque, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), a cada 1% de biocombustível misturado ao fóssil, cerca de 300 mortes são evitadas, em razão da melhoria da qualidade do ar e da redução de poluentes associados a doenças respiratórias. 

Diante de números tão expressivos, a previsibilidade regulatória e a execução do cronograma previsto em lei são fundamentais para ampliar esses benefícios.

A transição energética precisa avançar com rapidez e consistência. O país dispõe de um biocombustível pronto para uso, com escala industrial, benefícios comprovados e capacidade de contribuir de forma efetiva para enfrentar a crise climática.

O mercado brasileiro de biodiesel apresenta amplo potencial de expansão, especialmente na geração de renda e empregos. Atualmente, a cadeia produtiva é responsável por cerca de 2,5 milhões de ocupações no país. Na agricultura familiar, mais de 300 mil produtores são atendidos pelo programa Selo Biocombustível Sustentável em todo o território nacional, fortalecendo economias locais e promovendo inclusão produtiva.

Empresas do setor ilustram essa capilaridade. A Binatural, por exemplo, mantém parceria com 25 mil agricultores organizados em 24 cooperativas, com atuação em cinco dos seis biomas brasileiros. O modelo integra campo e indústria, assegurando mercado para pequenos produtores e estimulando o desenvolvimento regional.

Os indicadores também revelam ganhos qualitativos. A remuneração média na cadeia do biodiesel é 16% superior à registrada na agroindústria em geral. Dados do governo federal apontam que o aumento da mistura ao diesel fóssil, anunciado em agosto passado, pode viabilizar R$ 5,2 bilhões em investimentos em novas usinas e esmagadoras de soja, além da criação de mais de 4 mil postos de trabalho. A medida ainda projeta acréscimo de R$ 6,56 milhões na massa salarial da indústria e R$ 17 milhões no total, direta e indiretamente, bem como a inclusão de 5 mil famílias no programa social, com elevação estimada de R$ 600 milhões na renda familiar.

Os números evidenciam a solidez e a relevância econômica dessa cadeia produtiva, cuja contribuição vai além da agenda ambiental. Mais do que abastecer veículos, o biodiesel impulsiona regiões, dinamiza o campo e ajuda a manter a economia brasileira em movimento.

O carnaval de rua de São Paulo cresce a cada ano e já figura entre os maiores do país. Em 2026, a capital recebeu pela primeira vez Ivete Sangalo à frente de um bloco aberto no Ibirapuera, reunindo 1,2 milhão de pessoas em uma manhã de sábado pré-carnaval. Ao todo, 630 blocos desfilaram no período que foi do pré ao pós-folia, movimentando multidões e também uma extensa frota de trios elétricos.

Por lei, todo o diesel comercializado no Brasil contém 15% de biodiesel. Desta forma, os caminhões que puxam os blocos seguem rodando majoritariamente com diesel fóssil. Considerando uma média de 70 litros consumidos por percurso, segundo uma estimativa da Binatural,os 630 desfiles na capital paulista representariam emissões estimadas em 100,8 toneladas de CO2, de acordo com parâmetros do GHG Protocol. 

Se esses mesmos veículos operassem com biodiesel puro, o volume de emissões cairia para cerca de 18,9 toneladas de CO2. A diferença representa uma redução aproximada de 81%, podendo se aproximar dos 90%, considerando os geradores, demonstrando que a substituição integral do combustível tornaria a festa significativamente menos poluente, sem necessidade de adaptação estrutural complexa.

Os números indicam que a sustentabilidade pode desfilar ao lado da alegria. Assim como o carnaval, o biodiesel é uma solução genuinamente nacional, com escala e disponibilidade para uso imediato. Incorporá-lo de forma mais ampla aos trios elétricos seria um passo concreto para transformar a maior festa popular do país em um exemplo de celebração alinhada a uma transição energética justa e sustentável. 

A discussão sobre a importação de biodiesel para atender à mistura obrigatória vai além de uma simples comparação de preços. Trata-se de uma política pública estruturada ao longo de duas décadas, com impactos sociais, econômicos e ambientais mensuráveis. A recente Análise de Impacto Regulatório conduzida no âmbito do governo federal foi clara ao recomendar a manutenção da vedação, reconhecendo os riscos sistêmicos da abertura desse mercado.

Um dos efeitos mais imediatos recairia sobre a agricultura familiar. Hoje, mais de 300 mil produtores estão integrados à cadeia por meio do Selo Biocombustível Social, com geração de renda e desenvolvimento regional. Fragilizar o mercado compulsório significaria comprometer previsibilidade, reduzir demanda interna e pressionar toda a engrenagem produtiva que sustenta milhões de empregos no campo e na indústria.

Há ainda impactos indiretos sobre o custo dos alimentos. A cadeia da soja, principal matéria-prima do biocombustível no país, é integrada. Enfraquecer a indústria nacional pode desorganizar essa dinâmica, afetando oferta, investimentos e, consequentemente, preços ao consumidor. Ao mesmo tempo, não há justificativa técnica para a abertura: o Brasil possui capacidade instalada de 15 bilhões de litros e encerrou 2025 com produção recorde de 9,8 bilhões, volume suficiente para atender ao crescimento previsto em lei.

O produto nacional é um dos mais testados e regulados do mundo, resultado de 20 anos de aprimoramento técnico, controle de qualidade e rastreabilidade. O debate, portanto, não se limita à comparação de preços, mas envolve previsibilidade regulatória, segurança energética e desenvolvimento interno.

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